Uma história dos tempos que correm

No futuro existirão, sim, máquinas do tempo. Como eu sei? Acabo de receber a visita de um historiador do futuro que veio conhecer uma pessoa comum do nosso tempo.

Ele me explicou que a tecnologia disponível no tempo dele até agora não permitia a visualização de viventes comuns de tempos anteriores. Isso porque os sistemas deles só permitiam a visualização de pessoas que causassem um grande nível de efeitos sociais, ou seja, apenas grandes nomes da história da humanidade eram passíveis de ser visualizados em nosso tempo (para eles, esses 3.000 anos é o início dos tempos culturais). Por isso também, eles não conseguiam visualizar muito antes do século XX e quase nada antes de Gutenberg, por causa da inconsistência dos registros.

Contou também que essa viagem dele era o primeiro experimento com duas características novas desse novo equipamento, que eles conseguiram desenvolver com a ajuda de viventes de um futuro ainda mais longínquo que o dele: a primeira é que ele pode ser visualizado pelo (e trocar informações com o) vivente do passado que ele visualiza; a segunda é que eles agora podem focar em qualquer ser vivente (inclusive não humanos) do passado deles. Então, para testar a eficiência do processo, eles focaram numa pessoa absolutamente comum e desconhecida, com um nada de relações com o poder e nenhuma aparição na mídia, e foi assim que ele me encontrou.

…eles focaram numa pessoa absolutamente comum e desconhecida, com um nada de relações com o poder e nenhuma aparição na mídia, e foi assim que ele me encontrou.

Ele quis saber sobre o meu modo de vida, como o que eu comia, qual a minha relação com as máquinas, especialmente as cibernéticas porque, ele me contou, as sociedades do futuro são cibernéticas, onde o ser humano vive numa espécie de “simbiose” com as máquinas. Fez poucas perguntas porque seu sistema funciona como uma espécie de aspirador de informações (ele nem usa o termo “dados”, achou estranho quando tentei argumentar usando esse termo; para ele só existem informações) então eu não precisei falar muito sobre mim, ou sobre meu modo de vida ou sobre o meu entorno. Ficou claramente entusiasmado com a minha relação com a internet, porque era mais uma evidência histórica da importância dela para a evolução e sobrevivência da espécie (que nos tempos mais próximos a ele é, como eu disse, uma espécie híbrida, ou um tipo de ligação simbiótica animal-máquina, que sem a internet não teria sido possível, segundo sua visão).

Enquanto ele “sugava” as informações e trocava algumas comigo, pude fazer algumas perguntas, sobre nosso futuro próximo, e algumas sobre o passado também, que ele respondia sempre num português muito claro e limpo, mas com um tom bastante artificial, apesar de tudo. Mas sempre muito simpático, atencioso e gentil.

A primeira pergunta que fiz para ele, lógico, foi os números da megasena do próximo concurso que ele, sorrindo, disse que não poderia informar porque não seria ético (segundo a ética do nosso tempo, claro) apesar da minha insistência e tentativas de corrompê-lo. Mas parece que ele está bem satisfeito com o que ele tem lá no seu tempo, e não cedeu aos meus apelos.

Depois quis saber, então, se a situação econômica vai melhorar, se afinal eu conseguirei ganhar algum dinheiro além do que mal consigo para pagar as contas. Aí ele soltou o verbo! Primeiro quis saber se eu me referia à economia local, regional, nacional ou mundial e, como eu respondi “de todas”, ele falou durante bastante tempo sem parar.

A estrutura econômica montada desde o século XXVII … teria chegado a um ponto de exaustão no final do século XX e o século XXI seria um ponto de inflexão…

A economia do seu século, segundo nosso estudos, vai passar por uma grande revolução, disse ele. A estrutura econômica montada desde o século XXVII (ele frisava que utilizava nossas referências temporais) teria chegado a um ponto de exaustão no final do século XX e o século XXI seria um ponto de inflexão importante com relação a isso. Ele fez algumas análises técnicas de como seria essa virada, mas apesar dos seus esforços em traduzir para uma linguagem minha contemporânea, não consegui modelar bem os conceitos que ele me passou… uma pena. Mas algumas coisas ficaram claras: o conceito de estado será completamente modificado, o de país, ao fim do século, praticamente abandonado, e o de nação revivificado como uma acepção de povo. A estrutura econômica mundial será revolucionada mas, de toda forma, ricos continuarão ricos e pobres continuarão pobres. Se bem que, pelo que eu pude compreender da explicação dele, a distribuição de riquezas será muito mais equilibrada.

Ele falou que o início desse século (a época que estamos vivendo) será marcado por grandes crises, disputas sangrentas e convulsões sociais. Que essas mudanças, embora com um final positivo, não seriam imediatas e muito menos pacíficas ou tranquilas. Afirmou que a população mundial vai diminuir até um nível bem abaixo do atual, antes de voltar a crescer mas num ritmo muito menor do que o que vinha acontecendo até o século XX.

Então eu perguntei: – e o Brasil? Ele disse que não será muito diferente do resto do mundo, apesar de ser consenso entre os historiadores de sua época de que o século XXI teria sido um século muito importante para essa região, marcada principalmente pela emancipação política, tanto interna quanto externa (ele repetiu que essa visão de interno e externo a um país sofrerá um grande abalo neste século, mesmo considerando que ao final dele ainda restarão países, mas numa estrutura de relações internacionais profundamente modificadas). Disse que a ONU vai acabar quando os genocídios e matanças em massa atingirem seu nível máximo e que no Brasil e no sul da América, essa fase será menos drástica do que nas outras regiões do planeta, mas que a Grande Guerra Invisível (foi como ele chamou) será a maior responsável pela diminuição da população mundial. Disse que isso levará a uma distribuição de poder mundial um tanto diferente da deste início de século, onde essa região assumirá um peso muito maior nas relações, até porque no final do século XXI não haverá condições para hegemonias de qualquer tipo, apesar de que continuarão a existir os mais e os menos poderosos.

…o esquema foi sendo desmontado pelas mesmas pessoas que ajudaram a montá-lo…

De repente ele parou um pouco e logo recomeçou a falar que tinha recentemente visto (ele falou “sentido” e depois corrigiu para “visto” e ainda tentou “lido”) um estudo sobre o ponto de inflexão na história do Brasil e citou a mudança de poder que houve em 1964, que culminou, após uma reviravolta, com a ascensão do Presidente Lula ao comando do poder, e que essa reviravolta final foi um processo que levou a uma reestruturação institucional, durante a primeira década, que foi (em última análise) a principal responsável pelo grande desenvolvimento social dessa região no final da primeira metade deste século, mas que gerou também uma grande instabilidade institucional no país na década que estamos vivendo. Ele falou que essa crise de governabilidade de hoje em dia, deriva em grande parte de uma estratégia equivocada adotada por um dos grupos que compunha o corpo de apoio político ao governo do Presidente Lula. Contou que existe uma cena marcante nesse estudo em que, numa reunião extraoficial, o Ministro Dirceu tentava convencer o Presidente Lula a concordar com o plano de equilibrar a luta política através das ferramentas usadas pelos governantes desde tempos imemoriais, qual seja o desvio de valores institucionais/comerciais, através de associações ilegais com a elite econômica, para reforçar o poder de barganha no congresso e na mídia e que o Lula se recusava a aceitar essa estratégia, afirmando ser um erro se associar ao inimigo, que essas pessoas que ajudariam naquele momento, na verdade estariam jogando também com os adversários e que por isso não seriam confiáveis e que, portanto, seria um risco inadmissível. Diante da irredutibilidade de Dirceu, ele proferiu a famosa frase “… se vocês insistirem nisso já ficam sabendo que se der merda eu não sei de nada!” Segundo ele o Presidente Lula é reconhecido no seu tempo como um estadista de grande visão, porque aconteceu justamente o que ele previu: após alguns anos de grande crescimento da máquina política que sustentava seu governo, o esquema foi sendo desmontado pelas mesmas pessoas que ajudaram a montá-lo, além de que esse processo proporcionou meios para que se instalasse um sistema (novo, no sentido de que o destino dos fundos incluía novas pessoas, mas igual na sua estrutura e modus operandi) de ilegalidades na estrutura do estado (central e periférica) que ia muito além dos objetivos originais propostos, gerando algumas grandes fortunas particulares que não tinham nada a ver com o projeto de poder imaginado por Dirceu. A oligarquia não perdeu a oportunidade e tornou essa crise de governabilidade insustentável, e o país entrou num estado de quase convulsão, juntamente com a crescente convulsão mundial. Segundo ele, mesmo assim o Brasil (junto com mais alguns do sul da América) foi um dos primeiros países a se recuperar depois da Reforma Política de 2022/23 e por volta dos anos 40 essa será uma região muito próspera e de vanguarda social. Mas muitos morrerão no processo, que não será pacífico.

Aí ele me perguntou se eles (lá do seu tempo) tinham entendido bem o sentido da palavra “merda”, como teria querido utilizar o Presidente Lula. Eu ri e disse que sim e aí ele riu também.

Ele disse que tinha que ir embora mas que talvez voltasse, ou talvez um outro pesquisador me procurasse em busca de confirmar as informações por ele colhidas in loco hoje.

Santo André, 11 de fevereiro de 2015